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Letras, Línguas e Leitores

Cornélia Stölting

conniexbr@yahoo.com

 

 

TV-Cal

 

Assistir TV demais engorda, e como! TV combina com petiscos, lanches rápidos, lentos, vorazes, impensados, e até refeições inteiras. Quem nunca bateu um super-mega-combo com dupla porção de arroz e feijão em frente do imponente “membro da família”? Só que, peraí... dia desses, além da cintura levemente espessada (no meu ângulo mais mentiroso diante do espelho), descubro que meu cérebro também engordou!!! Como é possível? Só uso a TV para buscar cultura e informação.. (tá bom, às vezes só quero diversão..., mas isso é muito de vez em quando: uso a TV para saber do tempo, da cotação do dólar, do IGPM, do resultado do jogo e do número de mortes no trânsito. Mas, será que a telinha engorda também o pensamento? Neste caso, os programas teriam calorias, conteúdo hidrogenado e “colestelêrol”. Taí, deve ser por isso que o domingo dos atletas de sofá é tão prejudicial, tanto para o corpo quanto para a mente. O show do Faustão, por exemplo, corresponderia a 1 Tcal (tonelada de calorias), como uma seqüência de pastéis, fritos em banha de má qualidade; o Gugu, um pouco mais light (afinal, dá casas e lágrimas de emoção), mas igualmente indigesto em termos do excesso e da gastura de se constatar que o fim de semana terminou antes mesmo de começar. Na TV a cabo, a falsa ilusão de estar se alimentando é como um rodízio de massas: sempre a mesma coisa com molhos diferentes. Por certo que os comerciais não são tão comerciais (exceto pelos produtos de higiene bucal e prisão de ventre), mas anunciam sempre os mesmos trailers dos mesmos episódios, dos mesmos seriados, ou seja, se ficar três dias gripado assistindo, o sujeito pede a morte! Saberá tudo sem assistir a nada. Os noticiários, por sua vez, pecam pelo strip tease onde nenhuma roupa é tirada. Na chamada são lidas as manchetes, e no programa em si.. as mesmas manchetes, e as mesmas imagens!!! É churrasco de salsichão com pão, pão com salsichão, pão com pão... (e o Zézinho quer fazer côcô, mas não consegue, nem na casa do Pedrinho...). Na hora da picanha, o vivente já nem sabe mais o que está fazendo ali... diante da Tereza. E para coroar o Domingão Legal, só mesmo aquele ovo frito em cima do PF (prato feito): o espantoso Estático - show da vida – seguido pelo Teledormindo (como é conhecido), que bisbilhota a vida dos gaúchos através de câmeras escondidas em becos, bares e bolsos. De babar, no encosto da poltrona! E os incomodados que se retirem, concordo. Se sou eu quem liga o aparelho, preciso me controlar! Arrumar um jeito de colocar uma senha no controle remoto e me auto-proibir a mim mesma de assistir TV o tempo todo. Mas quem ficaria com a senha???
 

 

 

Unhappy Hour

 

Que estão todos indignados com a nova lei que proíbe álcool e direção é sabido e comentado. Também já se tentou esclarecer que, apesar de excludentes, as duas coisas ainda são possíveis: Se beber, não dirija avisa o comercial. Mas esta é uma mudança de comportamento e, por isso, difícil; e quanto mais difícil mais lenta. Mais do que isso, a questão com que se confronta o manguaça brasileiro é assumir que para estar alegre, só estando “alegre” o que, por sua vez, implica em dirigir alegremente seu ‘próprio’ automóvel, abusando tanto do trago quanto da sorte. E o happy hour, do jeito que era, vai ficando triste... ele, os garçons, os donos de bares, vinícolas, destilarias e cervejarias. De fato, não tem muita graça sair por aí caminhando com um Martini na mão, por exemplo. Caminhada é uma atividade própria do dia seguinte, em que o etílico pecador se mete num calção e leva as calorias adquiridas na véspera para uma corrida, na esperança de voltar para casa sem elas, e – o que é melhor – sem culpa. Este trânsito entre os estilos de vida saudável e nem tanto é ótimo, pois evita que os excessos virem regra e que as regras virem exceção. E falando em exceção, eis que surge a figura do amigo “Zero Álcool”, que não bebe, não fuma e não fala bobagem. Mais chato do que aturar sua irritante abstemia é lidar com a possibilidade de que ao final da farra ele passe a mão naquilo que não se empresta jamais – além da mulher e dos CDs –: seu bólido, seu direito de ir e vir, beijar ou não o poste, voltar ou não pra casa, enfim, de dar carona para aquela gostosa (pior, ainda fica com ela e o carro). Pois é, o desmame traz consigo a dor da constatação de que a bonitona, na verdade, nem era tão bonita assim, a turma nem tão divertida e a azeitona do pastel, inofensiva. Nem a tacinha de vinho se safou; agora dá cadeia!..

Tão pequena e solitária, quase nos faz esquecer que taças são para dois e gostam de andar aos pares. Tomar todas ou não tomar nenhuma? Eis a questão: Beba com moderação.... Taí uma palavra que não combina com consumo, muito menos com consumismo. Alguém já viu um maior de 8 tomar meio copo de Coca? Na dúvida, é melhor tomar em casa... para não tomar em outro lugar. Tem gente sugerindo o happy hour em formato de teleconferência. Que tal? Um querendo falar mais alto do que o outro, tendo que esperar a sua vez, cuspindo na tela, derramando cerva no teclado, se irritando e xingando pelo Blerg, ou colocando fotos da lata véia no Orputz... a família em alas na volta...Viva a criatividade, e sucesso para a Microsoft, que deverá lançar em breve o bafômetro acoplado ao microfone, um Photoshop em tempo real e um sistema de gorjetas que vai para o fundo dos garçons e taxistas aposentados.
* ao Pipo, que, comportado, só bebia em casa, a bordo de navios e em hotéis

 

 

Fraudário

 

Cedo na vida se aprende que a dissimulação e a manipulação são ferramentas úteis ao alcance das coisas mais importantes no mundo: nossas vontades e desejos. Quase na mesma época em que começa o esforço por mamar, ou seja, atrair para perto aquela mulher agradável que tem a “mamadeira” que nunca esfria, já existe (segundo os psiquiatras) um desejo de escantear a simpática portadora do “mamá” e ficar só com o leitinho. Quando atrás do rosto iluminado desta fonte de leite aparece outro sujeito que, além de sorrir, baba e atrapalha a mamada com palpites furados, o neném já começa a sentir que tem gente demais no pedaço. Se além dessa “galera” ainda houver outro ou mais seres pequenos, embora maiorzinhos, é melhor esconder as armas da casa, pois os primeiros sentimentos competitivos surgem como as brotoejas no bumbum. A família é uma coisa muito boa quando supera estas coisas naturais da psique humana. Ciúmes e inveja surgem bem cedo entre a criança, pais e irmãos. Esta vontade enorme de que não haja ninguém entre mim e o meu prazer chama-se egoísmo. “Eu me dou bem e os outros que se danem” parece reger a vida do egocêntrico ser humano, desde o fraldário até a fase adulta – o fraudário, onde ele exercita sua vontade de ser o único sem pensar em mais ninguém. Quantas vezes me atirei no chão para fazer meu irmão levar aquela carraspana da vovó? Quantas vezes esta avó perdeu a chance de me dar umas palmadas?.. (que Deus a tenha, coitada). Mas, para o sucesso dos truques e manobras deste jogo é preciso ousadia e falta de freio, o que muitos pequeninos aperfeiçoam e levam para a vida adulta, onde, em vez de sacanear os irmãos e coleguinhas de aula, puxam o tapete de colegas, sócios, eleitores e correligionários. E, rapidamente, os lapidados “profissionais” se tornam golpistas ou fraudadores (golpista sendo o termo chulo para fraudador), que com um pé na empresa privada e o outro na política, esquiam sobre as fendas que se abrem no chão que eles não pisam, mas pelo qual deslizam lépidos e faceiros, enquanto tudo embaixo e atrás vai rachando e despencando. Há quem creia que aqui se faz; aqui se paga. Mas “aqui” pode ser qualquer lugar! Em fraudes, empresas são de fachada, sócios são “laranjas” e transações são gravadas em celulares, ou seja, não valem legalmente. Pois é, qualquer acusação de má conduta traz consigo o ônus da prova, e pimenta no ônus alheio é colírio. O fraudador, com cara de anjinho, não liga a mínima para isso, ao contrário, se engrandece junto a seus semelhantes: o resto da corja. E falando nisso, o Congresso aprovou, em primeiro turno, um projeto de lei que proíbe o Ministério Público de investigar atos de corrupção do Presidente da República, governadores, senadores, deputados e até prefeitos. É uma festa! Os “irmãozinhos!” delinqüentes agora poderão botar a casa abaixo, tocar fogo no gato e aprontar à vontade, pois papai e mamãe saíram e a vovó está presa, na cadeira de rodas.